sábado, 12 de junho de 2010

Dica de livro - O erro de Descartes


A emoção tem sido largamente considerada como a face oposta da razão. De acordo com a tradição popular, muitas vezes deveríamos pensar fria e racionalmente, e não se deixar dominar pelos sentimentos. O ser humano tem sido diferenciado dos animais pela sua suposta “racionalidade”, que o permitiria dominar suas paixões animais. Além disso, o homem foi tido, por muito tempo, como o senhor da razão, e as mulheres, da emoção, sendo, por isso, consideradas inferiores a eles.

Na filosofia, grandes pensadores como Aristóteles, Descartes e Spinoza analisaram as emoções. Charles Darwin (1872/2000) considerava as emoções como equivalentes comportamentais de vestígios de órgãos (como o apêndice), que derivariam de fases anteriores da evolução. Na psicologia, Freud desenvolveu teorias sobre desordens emocionais e traumas infantis. Esses grandes nomes influenciaram a opinião popular quanto às emoções serem de pouca utilidade e danosas (Oatley, 1999).

No âmbito mais específico sobre mente e cognição, a emoção foi, por muitas décadas, negligenciada na área das ciências cognitivas (Damásio, 2006; Del Nero, 2002; Oatley, 1999). Quando comparada com a literatura em aprendizagem ou percepção, a pesquisa em emoções está atrasada (Oatley, 1999). Um dos primeiros trabalhos que envolviam uma aproximação cognitiva das emoções foi o de Bowlby (1969/1990), que propôs que as crianças desenvolvem um modelo mental da sua relação com seu cuidador.

De acordo com a Enciclopédia de Ciências Cognitivas do MIT (1999), as emoções por si apenas se tornaram um tópico científico legítimo nas décadas recentes. Uma parte da aceitação se deve aos influentes estudos trans-culturais de Paul Eckman sobre expressão facial (Ekman, Sorenson, & Friesen 1969), que sugeriram uma base inata e biológica para a experiência emocional. Fatores sociais também facilitaram a entrada das emoções na arena da pesquisa em neurociência, como o apoio popular às emoções como uma característica significante da vida humana (McCarthy, 1989).

Um dos neurocientistas que tem se debruçado sobre o tema das emoções é António Damásio. Sua visão das emoções no contexto do funcionamento cerebral e mental, somada aos seus trabalhos desenvolvidos, podem ser considerados revolucionários.

Em "O Erro de Descartes" (2006), Damásio trabalha com o tema das emoções e sentimentos do ponto de vista neurocientífico. Para o autor, os sentimentos são tão cognitivos quanto qualquer outra percepção. As emoções são parte integrante do cérebro humano, que nos habilita à interação com o meio. O autor mostra como que as emoções são parte essenciais da racionalidade.

A hipótese do marcador somático envolve a idéia de que a emoção é parte integrante do processo de raciocínio e pode auxiliar esse processo, ao invés de atrapalhá-lo. A emoção abriria a possibilidade de levar seres vivos a agir de maneira inteligente sem precisar pensar com inteligência. O sistema de raciocínio teria evoluído como uma extensão do sistema emocional automático.

O nome marcador somático vem do fato de que sentiríamos um estado somático, do corpo (emoção), que marcaria uma imagem. O marcador-somático faria convergir nossa atenção para o resultado negativo ou positivo a que a ação poderia nos conduzir, e atuaria como um alarme automático.

[...] os marcadores somáticos são um caso especial do uso de sentimentos gerados a partir de emoções secundárias. Esses sentimentos e emoções foram ligados, pela aprendizagem, a resultados futuros previstos de determinados cenários (Damásio, 2006, p. 206).

A emoção proviria ao cérebro um quadro do estado do resto do corpo, por isso “marcador somático”. O sentimento seria a “vista” momentânea de uma parte da paisagem corporal. “[...] a essência de um sentimento (o processo de viver uma emoção) não é uma qualidade mental ilusória associada a um objeto, mas sim a percepção direta de uma paisagem específica: a paisagem do corpo” (Damásio, 2006, p. 14).

Afinal, qual o erro de Descartes? A separação abissal entre o corpo e a mente. Mais especificamente, a sepração das operações mais refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo biológico, para o outro.

Para saber mais, leia esse maravilhoso livro!

Referências

Bowlby, J. (1990). Apego e perda: Apego, a natureza do vínculo. São Paulo: Martins Fontes. Original publicado em 1969.

Darwin, C. (2000). A expressão das emoções nos homens e nos animais. Companhia das Letras. Original publicado em 1872.

Damásio, A.R. (2006) O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras.

Del Nero, H. S. (2002) O sítio da mente: pensamento, emoção e vontade no cérebro humano. Versão eletrônica.

Ekman, P., E. Sorenson, and W. Friesen. (1969). Pan-cultural elements in facial displays of emotion. Science 186: 86–88.

McCarthy, E. D. (1989). Emotions are social things: An essay in the sociology of emotions. In D. Franks and E. D. McCarthy, Eds., The Sociology of Emotions: Original Essays and Research Papers. Greenwich, CT: JAI Press, pp. 51–72.



Oatley, K. Emotions. In Wilson, R.A., Keil, F.C. (editores) (1999) The MIT Encyclopedia of the Cognitive Sciences.


7 comentários:

Edson Moura disse...

Olá, muito bom este seu espaço. Quem dera tivessemos mais blogs com este conteúdo. Infelizmente vivemos num país onde é conveniente que a massa se interesse mais por futebol e carnaval...do que por ciência...educação e política.

Parabéns!

Tenho um blog onde procuro debater sobre os mais variados temas...e o mais recente é sobre "Ética na ciência". Gostaria muito que você pudesse colaborar com o seu conhecimento sobre o tema "genética". Precisamos de alguém com sua experiência para fomentar o desejo de aprender, nas pessoas que por lá comentam.

Abraços.

Edson Moura dos Santos

Blog: http://noreda.blogspot.com

Museu Exploratório disse...

No Ano Internacional da Biodiversidade, o Museu Exploratório de Ciências (MC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realiza no dia 12 de agosto, em Campinas, o fórum “Biodiversidade em perspectiva: patrimônio genético, patentes e pirataria”. Afinal, a quem deve pertencer os royalties das descobertas científicas no Brasil e no resto do mundo?
O evento é gratuito e acontece no Auditório do Centro de Convenções da Unicamp (CDC) das 9 às 17 horas. Podem participar pesquisadores, professores, estudantes e demais interessados no assunto. As inscrições devem ser realizadas no site www.cgu.unicamp.br até o dia 10 de agosto.

Peacecóloga disse...

muito bom isabella!!
adorei as postagens!

beijos,
Loren.

Blog:
peacecologia.blogspot.com

Letícia disse...

Olá amigos, deixo aqui a minha dica:
A Rede de Popularização da Ciência e da Tecnologia da América Latina e do Caribe (Red-POP) recebe até 15 de novembro, propostas de trabalho para a 12ª Reunião Bienal que acontece no Brasil, organizada pelo Museu Exploratório de Ciências (MC), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de 29 de maio a 2 de junho de 2011.
Com o tema “A profissionalização do trabalho de divulgação científica”, o encontro aceitará tanto trabalhos de pesquisa, de caráter acadêmico, quanto de profissionais da área, interessados em relatar suas experiências. Cinco eixos temáticos vão nortear a 12ª Reunião: Educação não-formal em ciências; Jornalismo científico; Programas e materiais para museus de ciências: materiais e práticas concretas; Museografia e museologia científica; Público, impacto e avaliação dos programas.

Daniel F. Gontijo disse...

Ótimo texto, colega. "O Erro de Descartes" foi um dos livros que me trouxe para as neurociências, e Damásio é um dos cientistas que mais me inspiram. Não deixe de ler seu "O Mistério da Consciência".

Um abraço.

CLÁUDIA HOFFMANN CRT 46418 disse...

Olá Isabella. Parabéns pelo seu blog. Amei e já adicionei ele nos meus links. Visite os meus blogs também!!

spadoser.blogspot.com
terapiasvibracionaispet.blogspot

Sucesso pra vc. Abraço.
Cláudia

protesta poeta disse...

A SUBJETIVIDADE...


Penso que é impossível descrever!
Mostrar!
Explicar!
Para outra pessoa compreender! Nem mesmo...

Todas as palavras do mundo... Utilizar!
De todos os tempos e lugares...
Incontáveis!
De terras e mares! Usar e abusar!

Não há como revelar!
A complexidade que no íntimo de um ser humano está!
Somente em parte!
Nós podemos compreender e decifrar!

Esse universo próprio!
Esse mundo de sentir!
Que no indelével devir!
Pulsa a buscar!

Buscar saber!
Buscar amar!
Buscar conhecer!
Buscar relacionar!

Complexidade indemonstrável!
Universo único venerável!
Caixa preta de sonhos e desejos!
Subjetividade: todos temos!

E, soa inútil, eu desejar lhes mostrar!
Mas, sempre tento...
E como tento:
Minha subjetividade...

Comunicar!

Oséias Faustino Valentim
www.protestapoeta.blogspot.com

[Razão e Emoção "trabalham" juntas!]